quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A guardiã da alma e do tempo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

A máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.*
Guillermo Cabrera Infante

 
Contigo aprendi a escutar a chuva.

Foi o que fiz, Maria, ontem, na madrugada de insônia. E me lembrei das tardes antigas em que, no inverno, me contavas histórias na velha casa de madeira e eu adormecia ouvindo a tua voz misturada à voz do vento.

No fundo do pátio, entre os plátanos, passava o arroio, levando o céu e as nuvens no seu espelho, fazendo rumor sobre os seixos, conversando com os canteiros da horta.

O arroio rompia desde o interior verde da mata e levava mundo afora meus barcos de papel e as folhas das árvores.

Nas águas claras a nossa vida se refletia, misturada ao azul do infinito e à cor luminosa dos peixes.

O mundo era cálido e suave como ninho de passarinho.

A casa se enchia com aroma de cravo, mel, açúcar queimado e canela. Quando acordava, sobre a mesa da cozinha estavam os doces que tinhas feito.

Nunca houve um mundo mais terno do que aquele que construíste ao meu redor. Nem existiu abraço mais consolador e verdadeiro ao teu menino.

Tecias com tuas mãos delicadas o ofício de guardiã do tempo e da minha alma.

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* A Ninfa Inconstante, Guillermo Cabrera Infante, p. 16. Coleção Literatura Ibero-Americana, Folha de São Paulo, 2012.
  Texto revisto, publicado no blog, pela primeira vez, em 25 de agosto, 2012.

sábado, 24 de setembro de 2016

A palavra viva de Carlinhos Oliveira

Jorge Finatto

caricatura de José Carlos Oliveira, por Amarildo Lima¹
 
Artistas e intelectuais: é justamente a minha família. Somos uma raça que se destaca em qualquer parte do mundo pela pobreza sem drama, pelo desleixo e pelas pupilas ardentes de curiosidade. Em solidão somos sombrios, sempre ruminando um ódio qualquer ou uma insatisfação que é quase um alimento, mas reunidos somos alegres, informais, carentes de afeto e generosos. (trecho da crônica O lar dos artistas)²                                                     
                                                            José Carlos Oliveira


TENHO COMPRADO livros em sebos (alfarrabistas como se diz em Portugal). Livros que, em geral, estão fora de catálogo ou são de difícil acesso. O que me chama atenção é o bom estado dos volumes que adquiri. Em nenhum deles encontrei uma assinatura, um risco, uma sublinha ou garafunha. As páginas estão limpas como se tivessem saído ontem da gráfica.

Tão diferente dos meus livros, nos quais faço notas a caneta nas páginas, sublinho, coloco a data e o local onde os comprei, se estava chovendo, o meu sentimento naquele quando. Os meus são livros cheios de rastros.

Quero falar de um em especial, dos vários bons livros que encontrei nos sebos. Trata-se de Flanando em Paris, do escritor José Carlos Oliveira (1934-1986). Natural de Vitória, Estado do Espírito Santo, publicou suas crônicas durante muitos anos na imprensa e foi um dos grandes do gênero no Brasil. Pois este livro tem sido um dos meus melhores companheiros ultimamente.

Impressiona como o autor está vivo nestas linhas. A intimidade que estabelece com o leitor, nunca forçada, é admirável. É um diálogo espiritual entre pessoas que estão à vontade numa mesa de café, olhando a vida em volta, com tempo para sentir e conversar.

Vejo, engulo, assimilo, transformo: quando a digestão se completa, estou mais rico. Mas a digestão é lenta, são necessários anos de ruminação. (trecho da crônica O artista sem fome - 1)³

O texto encantador de Carlinhos Oliveira é cálido, cúmplice, convivente. Acompanha o leitor em sua árdua jornada pelo dia, na dura faina de viver. Instiga-o a olhar o mundo e refletir, sem perder a poesia do cotidiano.

Flanando não é um livro de impressões de um turista qualquer pelas ruas de Paris, cidade que amava e onde esteve algumas vezes. São cartões-postais da alma de um artista da palavra de profunda e abrangente sensibilidade.

Pequeno na estatura, vespertino e notívago, escasso em recursos financeiros, mas com enorme poder de observação e registro do humano, escreveu estas páginas memoráveis.

São crônicas solidárias com as pessoas, seus conflitos, alegrias e sofrimentos. O escritor não se conforma com a desumanização e não se dá por vencido, apesar da dureza da existência.

Os textos espelham o olhar de um poeta, filósofo, jornalista, arqueólogo do espírito, antropólogo das esquinas e cafés parisienses. Um observador profundamente brasileiro e ao mesmo tempo universal.

Só posso dizer que é uma leitura venturosa. Flanando em Paris é um coração pulsante e belo no corpo da língua portuguesa.


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¹Blog do Amarildo:
https://amarildocharge.wordpress.com/2011/07/30/jose-carlos-oliveira-caricatura/ 
²Flanando em Paris. José Carlos Oliveira. Seleção, organização e notas por Jason Tércio. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2005.
³idem.
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Noites austrais

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
 
O planeta girava em lentos círculos. Aquela rua de chão batido era um grão à deriva no universo. Em certas noites geladas de junho, a conversa avançava pela madrugada. Na cozinha, em volta do fogão a lenha que ardia, cada um contava uma história, um caso real ou inventado. As notícias eram poucas. O rádio, quando pegava alguma estação, fazia  zumbido de mil abelhas. A luz elétrica de tão fraca era uma claridade escura. O menino tinha  vindo ao mundo há cinco, seis anos. Estava vivo contra todas as expectativas devido à saúde frágil. Era bom adormecer no colo da avó ouvindo vozes na velha casa de madeira de pinheiro. Era bom fazer parte daquele retrato perdido no tempo.  Era uma dádiva estar vivo no labirinto. Riscos de estrelas atravessavam o céu, caíam num lugar misterioso ali perto. Sobreviventes na longa noite austral, as pessoas observavam a geada encobrindo a escuridão lá fora. Águas subterrâneas corriam limpas debaixo das casas, afloravam nos poços, encanamentos, regavam secos sentimentos, derrubavam muros de ódio, lavavam a sujeira dos corpos, das almas. Para onde foram aquelas vozes? - pergunta o coração do menino - para onde correram aquelas águas?
 
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Texto revisto, publicado antes em 26 out. 2010.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A primeira manhã

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Porque há hibiscos
                                 na rua
e a primavera
quase sempre
é um sentimento
te ofereço esta manhã

como fantasma
não faço mais
que transitar
nessa obscura rota
do adeus

como se fossem meus
colho teus segredos
que o vento carrega
para onde eu não sei

te ofereço esta manhã
a primeira manhã do mundo
para não esqueceres
o bem que te quero

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Do livro Memorial da vida breve, Jorge Finatto. Editora Nova Prova, Porto Alegre, 2007.
 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Veneza, la bella signora

Jorge Finatto

photo: jfinatto. Veneza
 
Exposição fotográfica sobre Veneza, no Café Josephina, em Gramado, a partir de 15 de outubro
 
VENEZA é uma mulher madura e encantadora. Não esconde a idade, pelo contrário. O tempo é seu amigo e com ele troca confidências à beira dos canais e do Mar Adriático.

Olhando a vetusta cidade com os olhos do coração, o visitante poderá conhecer um pouco de sua alma luminosa. 
 
Os anos não lhe roubaram a beleza nem o poder de sedução. Os seus traços inesquecíveis, a sua luz de brilhantes multicoloridos que caem do céu e cobrem as águas. É impossível imaginar o mundo sem ela.
 
Veneza é um das cidades mais visitadas e fotografadas do planeta. Uma cidade de espelhos, segredos e mistérios. Perambular sem pressa e sem itinerário certo por seus tortuosos caminhos à margem dos canais (as fondamenta) é essencial para descobrir seu corpo cheio de cálidas surpresas.
 
A pé, numa gôndola ou num vaporetto¹, o passeio é sempre revelador. Não nos cansamos de admirar as pontes, as paredes de tijolos à vista, as janelas com flores, os telhados, as roupas a secar ao vento, as praças com pessoas de todos os lugares (talvez você dê sorte e encontre um veneziano em meio à multidão...), os longos e estreitos corredores que se perdem nos séculos.

Veneza, Ponte de Rialto (1591). photo: jfinatto
 
Veneza se deixa visitar, olhar, fotografar. Mas não se iluda o viajante: poucos terão acesso a seus aposentos interiores, à sua alma. Estes lugares não são para seus olhos.
 
Recatada, a bela senhora nunca se deixa desvelar por completo. É preciso saber tocá-la com o olhar, delicadamente. Com a ponta dos dedos da sensibilidade. Como quem toca uma estrela muito frágil fadada a desaparecer (o aumento do nível das águas, embora lento, estaria levando ao afundamento da cidade).

Reuni e selecionei fotos que fiz em Veneza e organizei uma exposição com o objetivo de compartilhar minhas impressões sobre a querida República Sereníssima. São 17 painéis que estarão à mostra no belo e aconchegante Josephina Café², no coração da cidade de Gramado, a partir do dia 15 de outubro (sábado). Estão todos convidados.


Josephina Café, Gramado

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¹Embarcação típica de Veneza, usada como meio de transporte pelos canais, com motor a diesel, e não mais a vapor como antigamente.
²Josephina Café:
http://www.josephinacafe.com.br/
 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Da fugaz eternidade

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 

Antigamente 
tudo conspirava
a favor da eternidade.

Agora, não tiro
os olhos do prazo
de validade...
 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Taça de café, pão com manteiga e cinema

Jorge Finatto

Cartaz do filme
 
Olho a chuva pela janela do café da praça enquanto bebo a inefável taça de café com leite acompanhada de pão com manteiga. Agora chove grosso aqui em Gramado, abriram-se as torneiras do céu. É setembro e isto é sempre assim, fim de inverno.
 
Acabou no sábado o Festival de Cinema de Gramado. Tinha me programado para assistir filmes do Uruguai, Argentina, Chile e Cuba. Comprei os ingressos. (A chuva engrossou mais ainda.) Acabei indo ver o cubano Espejuelos Oscuros (óculos escuros), um filme muito interessante. Escrito e dirigido pela jovem diretora Jessica Rodríguez.
 
A história trata de uma mulher cega que mora numa casa isolada nas cercanias de Havana. Sozinha, ela tem apenas a companhia de um gato. Até o dia em que vê a residência invadida por um criminoso fugitivo do presídio. Para defender-se da indesejada visita, ela passa a contar-lhe histórias.
 
Espécie de Sherazade de As Mil e Uma Noites, distrai seu interlocutor com três casos, três sub-histórias em que os atores são os mesmos da trama principal. O recurso narrativo é bastante criativo, sendo que os três relatos contêm elementos da história cubana contemporânea.
 
Do território da imaginação ela traz histórias que vão tecer a teia deste inusitado encontro. O desfecho disso tudo é surpreendente. Os atores Laura de la Uz e Luis Alberto Grcía são muito bons.
 
O filme não ganhou nenhum prêmio no festival, mas tem substância e mérito. A começar por ser um filme cubano que não fica restrito ao elogio da Revolução de 1959, seus personagens e suas conquistas, transformada numa ditadura. Pelo contrário, revela até uma certa impaciência e repulsa com bordões revolucionários. Ou estarei vendo coisas?
 
A película tem mais de uma leitura e pretendo vê-la outra vez quando entrar no circuito das salas de Porto Alegre. Creio que o grande escritor e cinéfilo cubano Guillermo Cabrera Infante (presente no blog) gostaria do filme.

Pois este foi o único longa-metragem que assisti. Tive de viajar logo no segundo dia e não pude acompanhar  mais nada. Os outros ingressos ficaram na gaveta, não deu tempo sequer de oferecê-los a alguém.
 
Escrevo essas linhas na tela do celular, novo brinquedo que me dei. Não utilizei o Word (deverei fazê-lo em breve). Escrevi com a canetinha que vem acoplada no aparelho, servindo a tela do celular como bloco de anotações. Não vou aposentar o calepino nem a caneta de tinta. Ainda sou um dinossauro da Era de Gutenberg.

Conversa entre pedras na rua.

- O planeta está lotado?
- Não, existe espaço pra todo mundo. Mas os donos de tudo cobram alugueres cada vez mais impossíveis.