quarta-feira, 24 de maio de 2017

Faro del Fin del Mundo

Jorge Finatto
 
Farol del Fin del Mundo. foto: jfinatto

A palavra USHUAIA vem do povo originário Yámane e significa baía (ou porto) em direção ao poente; ou baía penetrando no poente (oeste). À margem do Canal de Beagle, que une o Atlântico ao Pacífico, Ushuaia, cidade mais austral do mundo, como toda a Patagônia possui um dos mais impressionantes ecossistemas da Terra. A paisagem e os seres vivos que a habitam são de uma beleza e diversidade únicas.

vista a partir do porto. photo: jfinatto
 
A Baía de Ushuaia situa-se no interior do canal. O porto da cidade recebe navios de cruzeiro no verão e daqui partem outros tantos em direção ao continente antártico. Aqui a Cordilheira dos Andes corre de leste a oeste, estando a norte da cidade.  A entrada da baía é sinalizada pelo Farol del Fin del Mundo para evitar que os navios tropecem pelo caminho.

Ushuaia. photo: jfinatto

Uma linha imaginária corre pelo Canal de Beagle, separando Chile e Argentina. Todavia o olho do visitante não separa o que Deus uniu: ambos os países aparecem belamente misturados. O frio é glacial.

hora do soninho. lobos marinhos. photo: jfinatto
 
ilha de pássaros. photo: jfinatto

Naveguei nessa terça-feira pela baía durante três horas e fiz fotos. O catamarã para em pontos estratégicos de observação, próximos das muitas ilhas de pedra que surgem aqui e ali. Nelas vemos uma linda fauna de lobos e leões marinhos, pinguins, gaivotas e diversas outras aves. Em algumas as árvores têm os troncos retorcidos pela força implacável dos ventos. O vento úmido do Pacífico castiga a região.

O Canal de Beagle é literalmente abraçado pelas montanhas da cordilheira. Os picos nevados avançam pelas águas do mar até que desaparecem como o pôr-do-sol. O resto vem depois, imenso, assombroso, branco, azulado,  povoado de silêncio e mistério, e atende pelo lindo nome de Antártida.

montanha da Cordilheira dos Andes. photo: jfinatto
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Faro é a palavra espanhola para designar nosso farol de sinalização para navios. Em bom portunhol, aqui aparecem misturados farol e faro. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Ushuaia, a cidade do fim do mundo

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto 21 maio 2017
 

QUANDO O AVIÃO da Aerolíneas Argentinas começa a descer e atravessa o almofadão de nuvens, a quase dez mil metros de altitude, inicia-se a aproximação de Ushuaia. A visão que então se descortina é deslumbrante e perturbadora.
 
As primeiras imagens revelam a majestade da Cordilheira dos Andes, com suas montanhas cobertas de gelo e neve, numa extensão que a vista não ousa alcançar (cerca de oito mil km), percorrendo vários países da América do Sul. Num cálculo feito a olho da janela do avião, estimo entre dois e quatro mil metros a altura dessas elevações nesse ponto.
 
A maior montanha do maciço (e das Américas) alcança quase sete mil metros (6.960), o Aconcágua (Sentinela de Pedra), em Mendoza, também na Argentina. Prosseguindo, avista-se o Estreito de Magalhães, passagem entre o Atlântico e o Pacífico.

Estreito de Magalhães. photo: jfinatto
 
Ushuaia, a mais de três mil km de Buenos Aires, é a última cidade ao sul do planeta, a mais austral (La Cuidad del Fin del Mundo), capital da Província da Terra do Fogo, fundada em 1884, com cerca de 60 mil habitantes. Depois dela, a álgida e desabitada (salvo exploradores e cientistas) Antártida. O Canal de Beagle, em frente, com cerca de 240 km de comprimento, faz também a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
 
A Patagônia (na parte mais meridional da América do Sul) é uma das regiões mais belas do mundo. Nela sente-se a presença de Deus no silêncio das vastas extensões solitárias. Aqui no fim do mundo os extremos se encontram. E não há espaços para vidas isoladas. As pessoas precisam umas das outras para enfrentar a ausência.
 
Aqui é o fim do mundo. Solitude, imensidão. Ventos gélidos, impossíveis. Lugar onde as mãos precisam se dar. Começo talvez de uma nova quimera.
 

sábado, 13 de maio de 2017

O vício dos livros

Jorge Finatto
 
Italo Svevo. fonte: Wikipédia


O HOMEM É UM ANIMAL de óculos. O pensamento (aqui livremente transcrito) é do escritor italiano Italo Svevo (1861- 1928) e está na última página do livro A consciência de Zeno*, sua obra-prima. 
 
Svevo escreveu-o após um período de 20 anos sem nada produzir, frustrado diante da falta de reconhecimento de seus primeiros trabalhos. Estimulado por seu professor de inglês em Trieste, ninguém menos do que o escritor irlandês James Joyce, que se impressionou com seu talento literário, retomou a escritura traduzindo Freud para o italiano  e construindo este romance que foi publicado em 1923.
 
Em suas páginas, Svevo questiona o jogo de poder  na sociedade, o progresso e seus artefatos que muitas vezes põem tudo a perder.
 
O autor faz uma abordagem dos impulsos inconscientes que movem os personagens, em conformidade com a psicanálise de Freud em desenvolvimento na época (pela qual Svevo tinha grande interesse). Com humor, sensibilidade e sutileza, trabalha com a figura do anti-herói, um homem que passa a vida tentando parar de fumar e não consegue, enroscado em dilemas familiares, afetivos e psicológicos. Zeno produz um relato escrito de suas memórias, buscando autoconhecimento, tratamento e cura, conforme recomendação de seu psicanalista. Mostra-se cético em relação à análise para si, mas não chega a abjurá-la. O resultado desse trabalho é surpreendente.
 
Eu comprei A consciência de Zeno (em rica tradução de Ivo Barroso) em janeiro de 1984 (tinha o costume de datar os livros), numa banca de jornais. Era no tempo em que a Editora Abril publicava uma coleção de clássicos nacionais e estrangeiros. As edições eram excelentes: capa dura, papel de qualidade, preços acessíveis. Os autores (e tradutores) eram naturalmente muito bons. 
 
De sorte que até um cara pobre como eu, que vivia na dura lida da sobrevivência, podia com algum sacrifício comprar um volume por mês e assim iniciar uma pequena e intrépida biblioteca.

Como animal de óculos que tinha respeito e afeição pelos livros, minha autoestima se revigorava a cada obra adquirida. Os livros significavam consolo e beleza numa realidade violenta e sufocante como a brasileira. Nada mudou.
 
Tenho grande dificuldade de me desfazer de livros, mesmo daqueles pelos quais já não tenho tanto interesse. Talvez porque cada um deles está inserido na minha história e teve, a seu tempo, um sentido.

No dia em que eu morrer provavelmente eles vão acabar num alfarrabista qualquer, porque as casas já não têm espaço para livros. Os tempos são de nanotecnologia e é possível acumular várias bibliotecas num singelo leitor eletrônico.
 
A filha Clara diz ter medo que meu escritório desabe qualquer hora, comigo dentro dele, por causa do peso dos livros e quinquilharias. Acho que isso não vai acontecer pois coloquei novas estantes no andar debaixo, transferindo para elas parte do peso. A família não gosta desta estratégia de acumulador compulsivo (com razão). Estou me esforçando pra mudar isso, mas não é fácil.
 
Do mesmo modo que Zeno Cosini não conseguiu abandonar o cigarro, eu não consigo abandonar meus livros. Meu desapego das coisas materiais não chegou até eles. Em todo caso, tranqüilizei a todos: se o escritório vier abaixo, não se perderá grande coisa. Exceto pelos livros, claro.
 
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*A consciência de Zeno. Italo Svevo. Tradução de Ivo Barroso. Abril Cultural, São Paulo, 1984.
 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Saudade de um colo

Jorge Finatto 
 
photo: jfinatto
 
(...) há certos momentos em que sinto uma grande falta de um colo macio e morno onde recostar a cabeça e dormir tranquilamente - dormir, dormir, dormir, como se eu fosse apenas um passarinho.
Campos de Carvalho*
 

OS FIOS DE LUZ no alto da rua, esticados entre os postes, parecem a pauta de um caderno escolar. Ou as cordas de aço de um violão tocadas pelo vento. 
 
A chuva não parou na tarde de sábado. Nessas ocasiões vou até a janela especular o invisível. Perto, a uns vinte metros, estava a pomba cinza descansando sobre o fio. Melhor dizendo: tomava um banho de chuva. Parecia tão calma, distante de tudo e aconchegada.
 
Cheguei a ficar preocupado: estaria ela sem forças, doente, e por isso não se animava a bater asas e buscar abrigo? Dava a impressão de estar um pouco cansada. Talvez, como eu, com saudades de um colo de mãe.
 
photo: jfinatto
 
Mas ela estava muito segura de si, não esboçava sinal de fraqueza, qualquer tremor ou desequilíbrio. Às vezes fechava os olhinhos mergulhando num doce cochilo. Peguei a máquina e fiz algumas fotos, sem estardalhaço. Notei que ela percebeu meu movimento, mas não se incomodou.
 
Permaneceu ali por muito tempo, curtindo a chuva que caía sem pressa. Livre, sozinha, na santa paz. E eu me lembrei da frase em epígrafe desse livro encantador que é A lua vem da Ásia, do grande escritor mineiro Campos de Carvalho (1916 - 1998). Um belíssimo e cálido achado da língua portuguesa.
 
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*A lua vem da Ásia, pág 41. Campos de Carvalho. Editora Autêntica, 5ª edição, Belo Horizonte, 2016.
 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Tarde no Brasil

Jorge Finatto
 
 
O sentimento que me levou a escrever este poema, há muitos anos, é parecido com o de agora. A diferença é que, naquele tempo, eu tinha 22 anos e uma vida pela frente. Havia a ditadura militar mas havia, sobretudo, a esperança na democracia, que acabou se impondo pela vontade do povo. Os maus políticos e a corrupção, contudo, botaram tudo por terra. Precisamos urgentemente reinventar o sonho.
 

TARDE no Brasil
nenhuma novidade no coração ou no lugar
estou vivo

na esquina da Rua Santana
homens pobres discutem futebol
mulheres passam ao lado
o ruidoso colorido da roupa
cortando o silêncio em fatias

tarde
nenhuma esperança nos olhos de Esmeralda
a louca cantora sentada no meio-fio

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Poema do livro Claridade. Jorge A. Finatto. Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Alberta de Montecalvino

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto

VENEZA é o sonho de toda Colombina.

Eu passei a vida em Passo dos Ausentes. O que é esse lugar? Um território sitiado pelo vento. A neblina, o frio e a solidão povoam a aldeia o ano inteiro.

Habito com amargura e ironia esta estação de fim de mundo.

Casei-me aos 14 anos com Dom Alberto de Montecalvino, o Solitário da Biblioteca. Contrato de gaveta. Era eu de pobre origem. Estudava as primeiras letras e ajudava no serviço de casa. A mãe, viúva de quatro filhos, lavadeira, no inverno vendíamos lenha na porta das casas.

Na época Dom Alberto contava 69 anos. Desde aquele quando, passei a viver neste austero castelo de basalto e vidro. Hoje tenho 70 anos, sou deveras viúva e, às vezes, me perco nos salões da memória. As intermitências.

Daqui de cima, na larga janela da biblioteca, avisto o Contraforte dos Capuchinhos. Gosto muito dessa visão porque por ali é que se vai embora de Passo dos Ausentes. Mas nunca passei naquela estrada. Dom Alberto me pediu que jamais o fizesse. Os medos. Atendi o bom homem. Passaram-se os anos.

O muito amado do meu coração é Pedrolino. Dom Alberto sempre soube, suportou, era como um pai pra mim. O meigo Pedrolino. Amoroso e fiel. Seu amor é casto e resignado. Tem as delicadezas, carrega bosques de melancolia na alma gentil.

Arlequim é o senhor das labaredas.

Inconstante e fútil. Nunca vem ao meu coração. Tem meu corpo, jamais minha alma. Com ele muito me rio, é engraçado, leviano. Incapaz de amar alguém além de si mesmo. Não tem sentimento.

O corpo tem fome e a fome, seus apetites.

Arlequim é malicioso, egoísta, por isso sabe agradar quando quer. Pedrolino é terno, quase um menino, vai direto ao assunto. Não conhece as sutilezas.

Quem pudera reunir, na mesma pessoa, as gratas virtudes. Mas o mundo humano foi costurado imperfeito, eu sei. Tal felicidade ninguém merece.

Ambos os dois, Arlequim, o devasso, e Pedrolino, o amado, são a minha devoção. Cada qual no seu momento.

Sou a Senhora da Biblioteca. Viúva mui constante em negras vestes de luto. Os respeitos a Dom Alberto. Tenho a minha idade, conheço os regulamentos, mas só os cumpro à minha vontade. Cultivo a fé, no discreto. Véu de seda e missal.

Não me julguem tão depressa. Poupem-me da moral de almanaque.

De metafísica e solidão o cemitério está cheio. Conheço os reveses.

Eu vivo os enquantos.
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Texto publicado em 7 de julho, 2011.

sábado, 22 de abril de 2017

Benedictus de Spinoza

Jorge Finatto

Spinoza. pintura a óleo, cerca de 1665. autor desconhecido.
fonte: Wikipedia

UMA PEQUENA MESA de carvalho. Uma cama. Dois travesseiros. Uma estante de livros feita em madeira de pinho com prateleiras. Algumas lunetas. Um manto turco. Dois anéis de prata. Um paletó colorido.  Uma calça. Um jogo de xadrez. Uma mala velha.
 
Dois chapéus pretos. Dois pares de sapato. Um saco de viagem. Sete camisas. Uma gravata de algodão.  Dois lenços usados. 160 livros.

São alguns dos poucos objetos que fazem parte do inventário do filósofo holandês Benedictus de Spinoza, morto em casa, em Haia, na Holanda, em 21 de fevereiro de 1677. Acervo mínimo de quem quase nada teve além de si próprio e de seus pensamentos. A relação completa consta da excelente obra Ética, publicada pela Editora Autêntica, com elogiada tradução de Tomaz Tadeu em edição bilíngüe latim-português.¹

Benedictus de Spinoza (1632 - 1677), filósofo nascido em Amsterdam, filho de família portuguesa de origem judia que emigrou para a Holanda, tinha a desagradável mania de fazer o que todo filósofo que se preza faz: pensar pela própria cabeça. O que, no ambiente em que vivia, era uma ousadia e um atentado às verdades estabelecidas pelos líderes religiosos judeus e de outras religiões, e pelos políticos da época.

Ainda jovem (23 nos), em 1656, é excomungado e expulso da religião e da comunidade judaicas devido a sua formação humanista e liberal e a suas "más opiniões e obras", bem como pelas ligações com livres-pensadores. Onde já se viu sair-se com ideias novas sobre Deus, os homens e a vida?

Defendeu a liberdade de pensamento, sem interferência religiosa ou política, e a separação entre Estado e Igreja, política e religião. Do mesmo modo refletiu sobre a influência dos afetos na vida em sociedade. Foi profundo, corajoso, inovador.

O Conselho da Sinagoga, em Amsterdam, não deixou por menos: "expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos" Spinoza:

"Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar. Que não queira Adonai (Soberano Senhor) perdoá-lo, mas, antes, inflame-se o furor de Adonai e o seu rigor contra esse homem e lance contra ele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E que Adonai apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que  ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele." (Herem - anátema - pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656).²
 
A liberdade de espírito, o conhecimento longe de sectarismos e o questionamento de verdades dadas costumam ser malqueridos e maltratados pelas religiões e sistemas políticos.

Vivemos uma permanente Inquisição (ou incineração) das almas livres e sonhadoras. O que aconteceu com Spinoza lá, acontece hoje aqui, com algumas variações, mas em igual essência. Nada de novo sob o sol.

Mas o filósofo de pele morena e cabelos pretos encaracolados foi decisivo na construção de uma nova claridade, lançando um vento de esperança contra o inferno.
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1,2. Ética. Spinoza. Edição bilíngue Latim - Português. Tradução de  Tomaz Tadeu. Editora Autêntica. 3ª edição, 1ª reimpressão. Belo Horizonte, 2013.

Agradeço à Editora Autêntica pela autorização das citações.
 

sábado, 15 de abril de 2017

Maria Madalena

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Maria Madalena teve o privilégio de ser a primeira a ver Jesus após a Ressurreição.  Nenhum dos apóstolos teve essa ventura. Havia nas cercanias do lugar onde ele foi assassinado (Monte Gólgota, Jerusalém) um jardim e, neste, um túmulo novo ainda não usado. Foi nele que o sepultaram José de Arimateia (discípulo secreto de Cristo, homem influente e rico) e Nicodemos, envolto o corpo em fino linho.

Enquanto ela chorava diante do túmulo, onde o corpo não estava mais, Jesus apareceu-lhe. Era de manhã muito cedo. Num primeiro momento ela não o reconheceu. Até que ele diz: "Maria!". E a alegria de Madalena é infinita. Em lágrimas, ela toca o Senhor levantado dos mortos.  Ele então lhe fala:

- Para de agarrar-te a mim. Porque ainda não ascendi para junto do Pai. Mas, vai aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus".

Impressiona o amor de Maria Madalena por Cristo e o sentimento que os unia. Ele tinha expulsado sete demônios dela e a partir de então ela passou a segui-lo e amá-lo, segundo o relato bíblico.

Em sua passagem pelo mundo, Jesus mostrou-se um ser espiritual num corpo humano. Um ser que valorizava por demais o afeto. Daí ter proclamado a importância de amarmos ao próximo como a nós mesmos. Teve o amor como algo urgente e necessário.

Estamos à véspera da Ressurreição, no domingo de Páscoa. Relendo os quatro Evangelhos por esses dias (Mateus, Marcos, Lucas e João), dei-me conta de que, durante a vida,  assim como nas horas finais e na Ressurreição, Cristo foi acompanhado de perto, modo amoroso e atento, por mulheres.

O aparecimento de Jesus a Maria Madalena é revelador disso. É prova de gratidão e de um grande carinho. Mostra que ele não era indiferente à presença feminina em sua vida, mas tinha-a em elevada consideração.

Não há informes sobre Maria Madalena (da aldeia de Magdala, cuja existência foi comprovada por recentes escavações em Israel), além dos Evangelhos. Sabe-se, por exemplo, que assistiu a Cristo e aos apóstolos com seus bens como outras mulheres também o fizeram (Lucas 8: 1, 2, 3).

Quem foi essa mulher? O que fez e como viveu? Que momentos luminosos compartilhou com Jesus? Como se passaram seus dias depois da morte de seu amado Senhor? São mistérios a desafiar interpretações e especulações.

Uma coisa, contudo, parece certa: por ser quem era e pelo seu imenso amor, ela conquistou o coração de Jesus.
 

sábado, 8 de abril de 2017

Oblivion

Jorge Finatto

photo: jfinatto

O PROBLEMA DA MORTE é o manto de silêncio com que cobre o morto. O  manto de rijo basalto. A morte fecha seus olhos de modo que não pode mais admirar as nuvens, as borboletas, os córregos, os rostos queridos.

O morto não pode ler a palavra aurora, nem ver as magnólias (nessa época tão bonitas, tão bonitas). A memória do morto se dissolve em mil estilhaços de estrelas.

A morte torna o morto côncavo. Encovado em si mesmo, ele parte rumo ao oblívio. Álgida face, álgidas mãos. Da morte nada se aproveita, nem vela, nem coroa de flor, nem lágrima, nem discurso, nem nada. Nada.

O morto espera a mão de um anjo na travessia para o outro lado. E que Deus o receba quando lá desembarcar no seu barco de solidão.
 

sábado, 1 de abril de 2017

Tresloucadas umbrelas

Jorge Finatto

Série Umbrelas. Jorge Finatto

O guarda-chuva é o melhor amigo do homem, junto com o cão. Ambos vêm depois, claro, do ser humano, este sim o primeiro e verdadeiro melhor amigo do homem, embora alguns tenham dúvida sobre isto.
 
Um sujeito desamparado e solitário encontrará sempre no guarda-chuva um companheiro valente e leal nas intempéries da vida.
 
Aqui em Passo dos Ausentes, as umbrelas são tão consideradas que ganharam uma grande escultura na Praça da Ausência, a mais importante (e única, aliás) da cidade.
 
Lembro, a propósito, que Oscar Wilde esteve em nossa aldeia esquecida especialmente para encomendar guarda-chuvas de nossos mestres umbeleiros. Veio para ficar poucos dias, e demorou-se por 40 amanheceres!

Os guarda-chuvas que levou (Wilde era colecionador), com suas iniciais marcadas nos cabos de osso de anta, o acompanharam até o triste fim de seus dias, num pobre quarto de hotel, na Rue des Beaux Arts, 13, em Paris, não distante do Sena. Tão pobre que o teria levado a dizer, pouco antes de morrer: ou sai esse papel (horrível) de parede ou saio eu. Deixou muitas saudades, carinhos e bilhetes entre nós.
 
Objetos antiquíssimos, os chapéus-de-chuva têm uma dimensão onírica e simbólica. Podem significar proteção durante a travessia das dificuldades que a existência nos impõe. E um voo sobre os abismos da indiferença e da solidão. Além, é claro, da função primordial de abrigar-nos da chuva, da bruma líquida e do sol forte.
 
Tenho por eles, como todo ausentino, um afeto imemorial que remonta aos tempos do Dilúvio e que chegou até nós atravessando gerações.
 
No Café do Porto, em janeiro de 2016, expus a minha série Umbrelas, ao lado da outra, Visões da Serra. Duas em uma. Vejam o que disse, por e-mail, o poeta e amigo Ricardo Mainieri, após visitar a exposição:
 
Uma coisa chamou-me, logo, a atenção: as cores. Seja nas paisagens serranas, onde existem nuances de meios-tons, seja nas expressivas "umbrelas" tresloucadamente voando no céu.
Também é visível uma atmosfera de solidão e transcendência nas imagens da Serra e uma discreta alegria nas sombrinhas voadoras.
Pessoalmente, gostei mais das paisagens solitárias de nosso bioma interior. Elas me evocam um momento de reflexão e espiritualidade. Parabéns pela exposição.
 
O que pretendo com minhas fotografias? Passar um pouco de beleza e, talvez, alegria para as pessoas, num momento tão difícil como o que vivemos. Um instante de leveza, luz natural, cor, ar fresco e poesia, elementos que habitam as coisas simples, os Fanicos & Farfalhas do mundo.*

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Oscar Wilde em Passo dos Ausentes:
http://ofazedordeauroras.blogspot.com.br/2014/03/oscar-wilde-em-passo-dos-ausentes.html 
 
*Texto atualizado, publicado originalmente em 14 de janeiro, 2016.

terça-feira, 28 de março de 2017

O machado e o sândalo

Jorge Finatto

photo: jfinatto


COISAS QUE CARREGAM UM POUCO de mim dentro: o apito do trem chegando na estação, o apito do navio deixando o cais de Porto Alegre, o som da caixinha de música. O sorriso da antiga namorada: que bom que vieste.
 
O galo canta de manhã cedo, eu chegando na casa do avô depois de muito tempo. O abraço do avô. O bule de café, o leite quente, o pão feito em casa, o queijo, o salame, a chimia, a nata. A mesa posta na varanda. Na parede o quadro com a inscrição em alemão: o machado fere o sândalo que o perfuma. Vida ingrata. Vida boa.
 
A carreta do velho de capote preto e chapéu cinza passando na Rua São João. A garoa de abril turvando a janela da mansarda. Tudo vivo, pulsando tão distante.

Um dia todas as memórias serão presente. Não haverá oblívio nem saudades eternas. Um dia o machado compreenderá que ferir quem só faz bem é maldade pura, e maldade destrói também quem a faz.  Um dia o sândalo poderá viver e perfumar sem medo de ser cortado.
 

quinta-feira, 23 de março de 2017

The mysterious Mr. F

Jorge Finatto
 
photo: jfinatto
 
 
Para ser lido ao som de Koto Song, de Dave Brubeck
 

A man walks in the wind
A man walks in the beach
A man and his shadow
A man and his dark solitude
A man and his luminous hope...

 __________ 

Koto Song, Dave Brubeck:
https://www.youtube.com/watch?v=pvB_ZNtOb4E
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Visitante

Jorge Finatto

outono. photo: jfinatto


Quando o frio chega
eu saio com o bolso
cheio de pássaros
e vou até aí te visitar

tempero o inverno
no teu calor
de mulher

de manhã parto feliz
com tua luz
nas entranhas

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Do livro Claridade, coedição Prefeitura Municipal de Porto Alegre e Editora Movimento, 1983.
 

sábado, 18 de março de 2017

Senhor do tempo

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto

SER DONO do próprio tempo é um privilégio de poucos. É algo raro. E também assusta, às vezes, porque é preciso saber o que fazer com o tempo. Embora a vida seja curta, os dias são sempre longos. Mas eu vejo como um enorme presente que a vida nos oferece. Chegar com saúde a esse estágio é uma felicidade que vem de Deus. Quantos, infelizmente, não conseguem?

A literatura e a fotografia, que eram atividades quase clandestinas, passaram à ordem do dia. Poder dialogar com os habitantes das praças, ainda que em silêncio, é um luxo. Enfurnar-se em sebos e livrarias, sem medo de perder a hora, beira a maravilha.

Ler e escrever em paz, fazer um bom café às três da madrugada, dormir perto do amanhecer. Escutar os pássaros depois de acordar, nas árvores da redondeza. Fazer o contrário do que sempre se faz, sem culpa. Fazer o que sempre se quis. Tudo isso uma beleza. Mas é, antes de tudo, uma conquista de décadas de trabalho e compromisso. Agora eu vou contar quantos cocos tem esse coqueiro em Arraial d'Ajuda.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Passos e traços

Jorge Finatto
 
Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
NADA ALÉM de alguns rastros na areia. Nos idos de março, a comunidade de veranistas rareia. Antes era uma multidão de passos em todas as direções, uns sobre os outros, a perder de vista. Depois vieram os ventos de março e foram apagando, um a um, os traços, levando-os para outros espaços.
 
No próximo verão, outros rastros, outros pés, outros passos se desenharão diante do mar, marcando reencontros e o calor de abraços.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto

O que é da praia, em março, já sem rastros? Solidão sob o sol.
 
Sem a presença dos teus passos, o mar recolhe os braços.

photo: jfinatto


sábado, 11 de março de 2017

Kant à beira mar

Jorge Finatto 

Arraial d'Ajuda, Bahia. photo: jfinatto
 

TODO VIVENTE devia ter uma rede baiana e uma água de coco pra se aconchegar. O mundo seria outro. Não haveria tanta maldade, nem tanta tristeza, nem tanta grossura.
 
A filosofia, na Praia do Mucugê, aqui em Arraial d'Ajuda, é outra. Do outro lado do Atlântico tem a África. Do lado de cima do mar, o céu azul-infinito. Daqui da cadeira de praia, vejo a linha do horizonte com seu bordado de nuvens.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Por todo canto, lonjuras, palmeiras, coqueiros, gente sossegada olhando o movimento dos barcos e das ondas.

Kant, se tivesse vivido em Arraial, escreveria que o imperativo categórico é suco de cupuaçu, mar quebrando na praia e caipirosca.

Praia do Mutá, Bahia. photo: jfinatto

Praia do Mutá. photo: jfinatto

Devir é quando o sol se levanta, no fim do oceano, a cada amanhecer.
 
Sartre, por seu lado, teria ensinado que o inferno não é o outro, mas a sombra que ele projeta em nosso pedaço de areia.

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto
 
Ortega y Gasset conceberia que eu sou eu e minha praia. Não existe filosofia nem felicidade longe daqui. Fora deste lugar habita o caos.
 
O resto, bem, o resto se vê depois. 

Arraial d'Ajuda. photo: jfinatto   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Saudade da Terra Brasilis

Jorge Finatto

índios em Porto Seguro. photo: jfinatto

DIZEM QUE quando Cabral chegou nestas terras, em 22 de abril de 1500, o lugar era um paraíso. E decerto era. Como não seria? Ainda hoje percebem-se, em Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e arredores, vivos sinais de natureza (fauna e flora) e a resiliente presença do homem autóctone, o índio (atualmente o Pataxó), que vão resistindo, a duras penas, à multissecular invasão de seu território.

Nesta região, os treze navios da esquadra cabralina aportaram depois de Cabral avistar e dar nome ao Monte Pascoal (a cerca de 62 km ao sul de Porto Seguro). A Carta de Pero Vaz de Caminha, dando notícia do "descobrimento" a El Rey Dom Manuel, é um documento precioso do ponto de vista histórico e literário. Nela está presente a visão eurocêntrica do Novo Mundo. É o início da colonização e dos graves equívocos que começariam logo em seguida.

A palavra descoberta encoberta, no mínimo, um imenso eufemismo: já havia seres humanos habitando o lugar, povos indígenas com sua rica cultura e um modus vivendi em profunda integração e equilíbrio com a natureza.

Os navegadores portugueses encontraram um continente já povoado (com imensas áreas ainda por ocupar) e harmonioso (a Terra Brasilis, antes da chegada do europeu), até então livre de doenças terríveis trazidas do Velho Continente e da tentativa de dominação pela religião e pela força bruta. (Em Santa Cruz Cabrália foi rezada a primeira missa, em 26 de abril de 1500).

As cidades aqui do sul da Bahia são velhas como o Brasil e, como ele, muito jovens. Afinal, o que são 517 anos de história para uma nação ainda em formação?

Igreja N.S. da Conceição, Santa Cruz Cabrália, Bahia. photo: jfinatto
 
De qualquer modo, é tempo suficiente para praticamente exterminarem os povos indígenas, os habitantes originais, com quem temos tanto a aprender. A natureza, com este mar incrível e seus rios, persevera nos campos, florestas e sertões, mas não se sabe até quando. Um triste exemplo é o modo de ocupação e devastação da Amazônia. Uma ocasião sobrevoei a floresta e fiquei impactado com a fumaça das queimadas que vinha lá de baixo numa enorme extensão. 

A Terra Brasilis nunca mais seria a mesma depois de 1500. Mas é preciso ser claro: nos últimos 200 anos a destruição da natureza e a falta de perspectivas para os índios e o restante da população são obra autoral de brasileiros. Em conluio com forças do atraso e da corrupção dentro e fora da Terra de Vera Cruz.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Porto Seguro

Jorge Finatto

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá!
Dorival Caymmi
 
De passagem por Porto Seguro, sul da Bahia, colhi estas imagens. Elas comprovam que Caymmi tem razão, é preciso conhecer e viver a Bahia.
 
fotos: jfinatto
 
 
 
 
 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Abóboras, figos, galos e infância

Jorge Finatto
 
fotos: jfinatto, 02 de março, 2017

UM DOS ENCANTOS de vagabundear pelas estradas da serra, além da visão afundada dos cânions e abismos, é parar nas tendas de beira de estrada. Elas oferecem ao freguês toda sorte de verduras, legumes, frutas, doces, compotas, pães, etc. E são uma dádiva para os olhos.
 
 
Viajando ontem a Porto Alegre, parei numa delas, na altura de Nova Petrópolis. Comprei um cesto de uvas que impregnou a caminhonete com aquele cheiro divino.
 
Mas também levei uma abóbora de pescoço e morangas, sim, belas e nédias morangas verdes e cor-de-laranja (ou cor-de-abóbora...). Também peguei melões e figos, que nesta época estão no auge da doçura.
 
 
Pra completar a cena interiorana, do outro lado da estrada, numa sombra, um galo cantou várias vezes. Era uma tarde ensolarada, por volta de 16h, e ele queria era soltar a voz.
 
Deus, como tudo isso traz de volta a infância...
 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Essa alegria toda

Jorge Finatto

desfile do Boi Tolo, Rio - Marcia Foletto / O Globo 
 
Tanto riso, oh, quanta alegria
mais de mil palhaços no salão
 
Zé Keti, em Máscara Negra, marchinha de carnaval
 
ESSA ALEGRIA toda nos blocos de rua do carnaval e penso que é bom que assim seja, as pessoas se divertindo numa festa coletiva como não há igual. Alegria num tempo de absoluta aflição e poucos motivos para festejar.
Um dia considerei o carnaval uma festa para alienados. Não acho mais. Todo mundo precisa de um instante de fuga da realidade. O que são a literatura e a arte senão isto, uma busca desesperada de alheamento do real?
A vida a frio é muito difícil. O ser humano precisa de sonho e invenção. O carnaval revela o lado lúdico, faceiro, brincalhão e tribal de que tanto precisamos.
O problema não está na “alienação” dos festins de carnaval. O nosso desastre é não conseguirmos essa mesma união para mudar o que precisa ser mudado no país, a fim de que todos possam ser um pouco mais felizes durante o ano inteiro.
Não é sendo tristes que vamos melhorar o Brasil. A alegria é transformadora. Viva, pois, a festa, abaixo a melancolia! E que, na volta à realidade, encontremos forças para transformar as coisas, dentro e fora de nós.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A mulher do retrato

Jorge Finatto

photo da photo: jfinatto

 
E, NO ENTANTO, ela está ali, viva, na pequena moldura sobre a mesa do vendedor de quinquilharias na feira da Plaza Constitución em Montevideo. Encontrei-a na sexta-feira, 13/02/2015.

A brisa, um pouco fria, conversava com as folhas dos plátanos. O sol calmo espiava entre os galhos.
 
Viva e bela, lá está a jovem mulher desconhecida de 120 anos atrás. O semblante revela paz. Ou pelo menos resignação. Viver lhe traz algum encanto? Será feliz? Que sonhos acalentará no coração?

Ela vestiu o seu vestido mais bonito pra tirar a fotografia. Sabia talvez que a imagem ia atravessar o tempo e oferecer-se a olhos curiosos no futuro distante.

O retrato caiu do toucador do casarão abandonado na Ciudad Vieja. Muitos anos se passaram na sombra. Um dia entrou num baú e foi levado ao antiquário. Depois à praça onde agora brilham, sob os plátanos, os olhos da bela mulher.
 
O que é uma fotografia? Um instantâneo que não se deixa morrer. 

Um fragmento de vida congelado no tempo.

Uma face de mulher não se perdeu graças ao cálido registro.
 
Pequena eternidade que não se esvaiu no oblívio.

Plaza Constitución. 13/02/2015. photo: jfinatto
 
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Texto revisto, publicado antes em 14 fev. 2015.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O escritório no rodamoinho

Jorge Finatto
 
Campos de Cima do Esquecimento. photo: jfinatto


O ESCRITÓRIO é nave. Navega em mar revolto entre os dias e as estrelas. Presente, passado, futuro. Tempo, perpétuo pêndulo. Perdido, vivido, esquecido. Tempo de passagem, tempo de viagem, tempo de espera, tempo de fugazes eternidades. Lugar de achados incríveis. Semeadura, rota escura, colheita. Os bons momentos, esses que se vivem fora dos calendários, quando o tempo para e nos libertamos do açoite da ampulheta. A vida é tudo misturado. Rodamoinho.

Escritório onde habita o eremita e o doido aventureiro. O texto não é a vida em si, mas uma bela imitação. O mundo possível no interior do caos. Enquanto a nave navega, atravessa distâncias impossíveis, reconcilia ausências, a palavra se tece como um fio azul, se desprende do novelo e vai pelo espaço entre as estrelas até mergulhar na escuridão do cosmos, no sem fim do pensamento-coração. O escritório é álbum de recordações de um tempo que já não volta. Caderno onde se anunciam dias de explorar caminhos e contar histórias. Urgente amanhecer.
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Encher o saco de Deus

Jorge Finatto

photo: jfinatto
 
Senhor
tende piedade de Vós
que nos criastes*
                        Heitor Saldanha

 
AS BARBARIDADES que o ser humano faz todos os dias contra os semelhantes (?). Seremos nós um ato falho da criação? Fico pensando nessas coisas que me perseguem desde os tempos do Dilúvio.

Está escrito em Gênesis 6: 5-8: "Por conseguinte, Jeová viu que a maldade do homem era abundante na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, todo o tempo. E Jeová deplorou ter feito os homens na terra e sentiu-se magoado no coração.

"De modo que Jeová disse: "Vou obliterar da superfície do solo os homens que criei, desde o homem até o animal doméstico, até o animal movente e até  a criatura voadora dos céus, porque deveras deploro tê-los feito." Mas Noé achou favor aos olhos de Jeová."

O Dilúvio veio, chovendo durante quarenta dias e quarenta noites, e destruiu tudo, salvo Noé, sua família e os animais que levou junto na famosa arca. A vida recomeçou.

A solidão e a tristeza de Deus me comovem. Não se sentirá Ele muito sozinho, sem ter com quem conversar em tempos de tantos massacres e incompreensões como agora? Terá o Criador alguém com quem desabafar nas horas difíceis?
 
Estou me referindo àqueles dias em que Ele olha para a Terra e assiste ao deplorável espetáculo que continua sendo apresentado por homens e mulheres.

Como se sente um Pai ao ver os filhos nos descaminhos da perversidade e do sofrimento, sem falar na solene indiferença ao outro? Deve ser profundamente doloroso.

Por isso gosto muito do poema de Heitor Saldanha em epígrafe, que bem resume essa perplexidade. Um texto dilacerante, dos mais belos já escritos por um poeta.
 
Espero que Deus perdoe a minha intromissão em seus assuntos de foro íntimo. Ainda mais partindo de um grão de areia como eu.

O pensamento é o parque de diversões de filósofos, poetas e outros seres inúteis. Essa gente que passa os dias obstinada em encher o saco de Deus como se o Criador não tivesse mais o que fazer.

Eu aqui nessa puta solidão cósmica a querer falar da solidão do Todo Poderoso. Tem gente que não se enxerga.
 
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*A Hora Evarista, Heitor Saldanha. Poema Oração do mortal, p. 49. Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1974.

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aurora do mundo

Jorge Finatto
 
 
Amor
É quando batem em você e dói muito.
(Viviana Castaño, 6 anos)

Criança
Para mim a criança é algo que não é cachorro. É um humano que todos temos que apreciar.
(Johana Villa, 8 anos)
 
Adulto
Pessoa que em toda coisa que fala, vem primeiro ela.
(Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)

Universo
Casa das estrelas.
(Carlos Gómez, 12 anos)


O MUNDO DAS CRIANÇAS está povoado de sabedoria,  imaginação e poesia. Elas veem as coisas com outro olhar, sem dúvida mais humano e completo que o nosso. E nunca omitem seu sentimento quando se expressam.
 
O amanhecer do universo habita o coração infantil com suas cores e sentidos. Os pequenos são capazes de ver muito além dos preconceitos e aparências.

Olham a vida pela primeira vez, como fazem os poetas, os artistas e os puros de coração. Esta visão inaugural é capaz de notáveis revelações.
 
O olhar primitivo de meninos e meninas está longe da contaminação que advém dos condicionamentos. Ainda não se submeteram por inteiro às imposições do ambiente social. É nessa capacidade generosa de ver a vida, e aproximar-se do outro, que elas muitas vezes nos surpreendem.
 
Pois um excelente apanhado deste notável poder de percepção é o que encontramos no livro Casa das Estrelas, organizado pelo escritor colombiano e professor de alunos de séries iniciais Javier Naranjo.
 
Ele recolheu, ao longo de mais de dez anos, frases de seus alunos de espanhol, leitura e criação literária, com idade entre 3 e 13 anos. O trabalho ocorreu em escolas situadas na cidade de Rionegro, departamento (estado) de Antioquia, na Colômbia.

Javier Naranjo também é pesquisador da linguagem infantil e este livro é produto de seu encantamento em trabalhar as palavras, a leitura e a criatividade com as crianças, num clima de liberdade e prazer.
 
Os pequenos autores expressam sua visão das coisas a partir de palavras-tema que escolheram e compartilharam em sala de aula. O resultado é riquíssimo do ponto de vista da linguagem (a maneira livre de amarras sintáticas de se expressar) e do conteúdo. Por vezes, temos a impressão de estar navegando nas águas mágicas de outro colombiano ilustre, Gabriel García Márquez.
 
Para quem se sente exausto diante do palavrório gasto e enfadonho do dia a dia, a leitura das frases destes audazes construtores de sentido nos remete à aurora de um mundo onde a linguagem ainda não cedeu aos apelos da publicidade, da mentira, da pobreza de ideias e sentimentos.

Deus
É invisível e não sei mais porque não fui no céu.
(José Piedrahíta, 3 anos)

Eternidade
É esperar uma pessoa.
(Weimar Grisales, 9 anos)

Família
Lugar onde tem muita discussão e se amam.
(Alejandra Giraldo, 10 anos)

Igreja
Onde as pessoas vão perdoar Deus.
(Natalia Bueno, 7 anos)
 
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Casa das estrelas, o universo contado pelas crianças. Seleção, organização e apresentação de Javier Naranjo. Editora Foz, Rio de Janeiro, 2013. Tradução de Carla Branco. Ilustrações de Lara Sabatier.
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Je reste au lit

                                                          Jorge Finatto

photo: jfinatto

 
EU FICO NA CAMA. Sair do quarto pra quê? À força de invencível banzo, não traço nem a primeira das duas linhas que queria escrever. Imagino um banco, entre pinheiros, na praça da imaginação, à espera do amanhecer do texto. Nada.
 
Palavras são caramelos. Palavras são farelos de uma coisa maior. Mas hoje eu não quero falar disso. Estou com banzo. Quero ficar quieto.

Não que haja leitores esperando, nem há nem. Ler? Existem para todos coisas mais urgentes.

Essa mania de escrever e não ser lido é coisa de louco. Coisa que se presta a um estudo. Será feito por algum arqueólogo da internet - ou psicanalista do ciberespaço - daqui a séculos. Enquanto isso, eu fico na cama.

Palavras também cansam. Que fiquem todas dormindo no dicionário. Je reste au lit. O fato é que não vejo graça em sair do quarto.
 
Preciso de um tempo de silêncio. É bom ficar calado nesse mundo cheio de bocas parlantes.

Resta um imenso vazio diante das notícias da Terra de Vera Cruz. Não dá pra ficar mais de cinco minutos escutando o noticiário, sem ter vontade de vomitar. Prefiro não ler jornal, revista, nem ver tv. Melhor ficar na cama, lendo um livro ou ouvindo música. De vez em quando uma passada até a janela, mas sem demorar ali.

Pensar em fugir não adianta. Pra onde? Celulares, câmaras secretas, satélites, drones e outros invasores são capazes de localizar o evadido em poucos segundos. Além disso, não pretendo sair da cama. Amanhã é outro dia, certo. Por hoje, contudo, a realidade pode passar muito bem sem mim.

Como tarda a claridade quando a escuridão é tamanha!
 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Hay días que me gusta vivir

Jorge Finatto

Lisboa, Tejo e gaivota. photo: jfinatto
 

NEM UMA GOTA de melancolia, nem mágoa, nem tristeza. Não quero peso nas palavras. Por que havia de escrevê-las ao avesso num dia ensolarado com todas as ventanas abertas? O dia é longo e a vida, grande. Grande a vida na miséria de cada instante. Imensa vida, vista do grão de tempo que habito.

Olho os telhados, o céu branco com nuvens azuis. Respiro à janela. Um gato esticado sobre o muro. A horta humilde no pátio lá em baixo. E flores crescendo sem cuidado na calçada ao alcance do olhar fatigado.
 
Que posso mais querer? Carrego recordações felizes. Por exemplo, teu rosto iluminado por um raio de sol, sorrindo quando tínhamos 20 anos. E sinto um doce perfume  que vem dos teus cabelos e do teu corpo. E nos vejo numa praça e depois subimos por uma avenida larga e comprida. Mãos dadas, conversas sem relógio. Havia uma eternidade pela frente e nós juntos nela.
 
Pressinto os anjos que caminham ao meu lado, ajudam a sobreviver a tanta coisa ruim. Os anjos, mensageiros de Deus, nunca nos abandonam. É por causa deles que estou hoje aqui, à janela, olhando sobre os telhados uma nesga de rio ao fundo entre os edifícios.

As ventanas abertas ao sol, ao movimento dos barcos, à solitária gaivota. Vida que é bela e grande pelo simples fato de estar vivo e  respirando à janela.